domingo, 27 de maio de 2007

POESIA E PRAZER

Amor, então

Também acaba?

Não, que eu saiba.

O que eu sei

É que se transforma

Numa matéria-prima

Que a vida se encarrega

De transformar em raiva.

Ou em rima.

(Paulo Leminski)


POESIA E PRAZER

O erotismo enquanto modalidade do discurso literário, por mais desprezado e combatido que se apresente, se faz permanente na história da literatura. Também no pensamento, vários intelectuais se dispuseram a sistematizar reflexões sobre o erótico na poesia. O escritor mexicano Octávio Paz (1914-1998) já disse que “a relação entre o erotismo e a poesia é tal que se pode dizer, sem afetação, que o primeiro é uma poética corporal e a segunda uma erótica verbal”.

Essa presença marcante não é diferente na produção da lírica brasileira. De Gregório de Matos seiscentista ao contemporâneo Glauco Mattoso, sobram-nos exemplos da habilidade de autores brasileiros que caminharam pelo erótico. A atitude, quase sempre de transgressão, é produto elaborado de determinada visão de mundo do seu tempo; marca, portanto, o olhar do poeta sobre sua sociedade e costumes. Dessa forma, uma apresentação de composições que tenham como força vital de construção o erótico é, na verdade, um registro das variáveis do pensamento e suas representações. O crítico Roland Barthes (1915-1980) observa que "a linguagem é uma pele”, o contato do poeta com o mundo é a sua linguagem. Então, o texto erótico é resultado da combinação ser e mundo, é direito do sujeito lírico de afirmar seus desejos e amores e é possibilidade de registrar, “como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras" (BARTHES), as experiências com o mundo.

Paulo Leminski e seu exercício da linguagem, Ana Cristina César e a delicadeza de disfarces, Glauco Mattoso e seu fetiche, Hilda Hilst e a pulsão corporal, João Cabral e a sobriedade no trato amoroso, Adélia Prado e a mística religiosa, Carlos Drummond e seu refinamento poético, Oswald de Andrade e sua irreverência apresentam ricos exemplos, no século 20, de experiências diferentes no trato do erotismo.

Ler essa diversidade e tratá-la sem a hipocrisia do moralismo que torna obscuro o fazer literário que fuja ao comportado são tarefas de todo leitor crítico. E principalmente é experiência que atiça e enriquece o mundo da poesia e do prazer.



Leituras recomendadas sobre o erótico
  1. ALEXANDRIAN. História da literatura erótica. Tradução: Ana Maria Scherer e José Laurêncio de Melo. Rio de Janeiro: Rocco.

  2. BARTHES, Roland. O prazer do texto. Tradução: J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 1977. (Coleção Elos)

  3. BRANCO, Lúcia Castello. O que é erotismo. São Paulo: Brasiliense, 1984. (Primeiros passos, 136)

  4. DURIGAN, Jesus Antônio. Literatura e erotismo. São Paulo: Ática, 1985. (Princípios, 7)

  5. FOUCAULT, MICHEL. História da sexualidade I – A vontade de saber. 13 ed. Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. ª Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1999.

  6. MARCUSE, Herbert. Eros e civilização: uma interpretação filosófica do pensamento de Freud. Tradução: Álvaro Cabral. São Paulo: Círculo do Livro, s.d. [1ª ed. Fr. 1955]

  7. MORAES, Eliane Robert & LAPEIZ, Sandra Maria. O que é pornografia. São Paulo: Brasiliense, 1984. (Primeiro passos)

  8. PAZ, Octavio. A dupla chama: amor e erotismo. Tradução: Wladyr Dupont. São Paulo: Siciliano, 1994.

  9. PLATÃO. O banquete ou Do amor. 7 ed. Tradução: J. Cavalcante de Souza. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995.

  10. SANT’ANNA, Affonso Romano de. O canibalismo amoroso: o desejo e a interdição em nossa cultura através da poesia. 2 ed. São Paulo: Brasiliense, 1985.

  11. SOARES, Angélica. A paixão emancipatória: vozes femininas da liberação do erotismo na poesia brasileira. Rio de Janeiro: DIFEL, 1999.






1 pitacos:

neiaoi disse...

Pofessor Raoni,adorei a comunidade,é uma possibilidade a mais para adquirirmos mais conhecimentos !!!!!