segunda-feira, 2 de julho de 2007

Bagagem e intertextualidade


Depois de participar de encontro proposto pelo projeto Café Literário do Sesc, iniciei a semana com o tema abordado por Lúcia Bettencourt em sua apresentação: Relações Intertextuais na Literatura. Lúcia, com muito charme, pontuou sua apresentação a partir da obra de Borges e da necessidade de não reverenciarmos os cânones. Bom, trancrevi então artigo em que reviro o primeiro poema do primeiro livro de Adélia Prado:



REVIRANDO BAGAGEM

Marco de peso nos 1970, Bagagem, de Adélia Prado, lança-se sobre a égide do compatrício Carlos Drummond de Andrade: “Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: esta é a lei, não dos homens, mas de Deus. Adélia é fogo, fogo de Deus em Divinópolis.(...)”. Força e peso marcaram o rompimento ideológico e estético proposto por Bagagem. Vejamos: 1976 é também o ano de lançamento da antologia 26 poetas hoje, organizada por Heloísa Buarque de Holanda, marco referencial a partir do qual pode-se ver a produção poética de Adélia Prado na contracorrente, de ruptura. Em tempos bicudos, de repressão, a voz do sujeito adeliano escapa a um arquétipo de poesia engajada, revelando-se, sobremaneira, “desdobrável”: lírica, feminina e religiosa.

Apresento aos companheiros do blogue, partindo do seu texto de abertura em seu livro de estréia, a autora:

Com licença poética


Quando nasci um anjo esbelto,

desses que tocam trombeta, anunciou:

vai carregar bandeira.

Cargo muito pesado pra mulher;

esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,

sem precisar mentir.

Não sou tão feia que não possa casar,

acho o Rio de Janeiro uma beleza e

ora sim, ora não, creio em parto sem dor.

Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.

Inauguro linhagens, fundo reinos

dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,

já a minha vontade de alegria,

sua raiz vai ao meu mil avô.

Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou.


A reiteração de imagens do “Poema de sete faces”, exórdio da poesia de Drummond, projeta a construção de uma identidade de um sujeito feminino. Construído de maneira peculiar, o sujeito rompe com o cânone moderno para afirma-se enquanto diferença a fim de dar novo direcionamento ao gênero que se revela:


(...) Neste sentido, o gesto realmente ousado e iconoclástico operado no poema de Adélia é o deslocamento de ponto de vista. Se o poema de Drummond era a certidão de nascimento de um poeta homem que falava por todos, o poema de Adélia registra o nascimento da poeta mulher que não mais permite que falem por ela. (..)1 (grifos meus)


Linhagens e reinos são criados (e inaugurados) em versos que assumem dimensões litúrgicas. Trata-se da mística religiosa, mote da poesia de Adélia. Convém reforçar que a tônica do sujeito a ser estudado está na sua flexibilidade e diversidades de formas. Não é de se estranhar, pois, o panteão de referências literárias presentes em Adélia Prado: Drummond, Bandeira, Jorge de Lima, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, San Juan de la Cruz, Santa Teresa D’Ávila e a Bíblia formam o panorama de intertextos a serem lidos e buscados, e não reverenciados.

Repertório e intertextualidade tornam-se promessas de viagens neste Bagagem. Tomara que o montante/destino do leitor nos seja de um todo valioso.


1 MORICONI, Italo. Como e por que ler a poesia brasileira do século XX. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002, p. 142-3