terça-feira, 14 de outubro de 2008

A guerra das palavras

Vejam o que se passa no país:
da Folha, caderno Mais.

São Paulo, domingo, 05 de outubro de 2008


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A guerra das palavras

Pais pressionaram direção de colégio a demitir professor -"disseram-me que
havia um parecer de psicólogos e juristas condenando a combinação de professor
e escritor", afirma; instituição não se manifesta

LAURA CAPRIGLIONE
DA REPORTAGEM LOCAL

Poeta e professor de literatura, Oswaldo Martins Teixeira, 47, foi demitido
no dia 11 de setembro da Escola Parque do Rio de Janeiro, onde lecionava para
turmas de 7º e 8º anos do ensino fundamental. Pais de alunos descobriram que
Teixeira escreve poemas eróticos; ele os publicou em livros e em um blog.
Pediram a cabeça do professor.
A escola moderna, construtivista, mensalidade de R$ 1.161, unidades na Barra
da Tijuca e no aristocrático bairro da Gávea, que funciona sob o lema "Uma
escola que estimula a expansão cultural", demitiu.
Formado em letras pela Pontifícia Universidade Católica, o professor
Teixeira obteve o título de mestre na Universidade Estadual do Rio de Janeiro,
com a dissertação "Erotismo e Gramática, Índices da Defloração - Uma Leitura de
Manoel de Barros", de 1992.
Há quatro anos, prepara seu doutorado na Universidade Federal Fluminense
sobre o poeta, escritor e dramaturgo italiano Pietro Aretino (1492-1556).
"Diverti-me escrevendo os sonetos que podeis ver. A indecente memória deles,
eu a dedico a todos os hipócritas, pois não tenho mais paciência para as suas
mesquinhas censuras, para o seu sujo costume de dizer aos olhos que não podem
ver o que mais os deleita."
O texto é de Aretino. Refere-se aos "Sonetos Luxuriosos", escritos em
linguagem explícita a partir de 16 gravuras eróticas de Giulio Romano,
discípulo de Rafael Sanzio, um dos maiores mestres em pintura e arquitetura,
contemporâneo de Michelangelo e Da Vinci.
Aretino e Giulio Romano nasceram no ano da descoberta da América, durante o
Renascimento das carnes e dos sentidos. Juntos, elaboraram uma obra-prima do
despudor.
"Ousei criar poemas à moda de Aretino", justifica o professor em tempos
politicamente corretos.
Autor de quatro livros publicados pela 7 Letras -"Desestudos" (2000),
"Minimalhas do Alheio" (2002), "Lucidez do Oco" (2004) e "Cosmologia do
Impreciso" (2008)-, Teixeira mantém um blog (http:// osmarti.blogspot.com).
"a alice no país das baboseiras/ é uma garota esperta// prefere foder com a
coleguinha/ usar celular/ batom// cortar as cabeças/ dos mendigos." O poema
figura na "Cosmologia do Impreciso".

Fogueira ardendo
Foi na preparação da Semana Literária da Escola Parque (realizada em maio)
que a fogueira do professor começou a arder. "A coordenação me pediu que fosse
às salas de aula do 7º e do 8º anos para divulgar o meu processo de escrita e o
blog. Contei como eu criava, falei de minha paixão pela literatura, tentei
mostrar que inclui saber ler as estrelas no céu, os passos até a banca de
jornal."
Na mesma semana, os garotos deram um "google" e descobriram o blog do
professor na internet. Escândalo.
Pais foram até a coordenação pedagógica reclamar do que consideravam ser um
conteúdo inadequado, pornográfico, obsceno. O professor foi chamado a se
explicar: "Eu disse que não via problema nenhum, que a literatura erótica é tão
antiga quanto a própria literatura."
A lista de livros sugeridos neste ano para os alunos do primeiro ano do
ensino fundamental da Escola Parque inclui "Poemas para Brincar" e "Olha o
Bicho", de José Paulo Paes (1926-98). Um "google" no nome do poeta e vem
"Fodamos, meu amor, fodamos presto. Pois foi para foder que se nasceu...". É a
tradução dos "Sonetos Luxuriosos" de Aretino, que Paes providenciou -a primeira
feita para o português.
Na biblioteca da Escola Parque, pode-se ler o livro "Belo Belo e Outros
Poemas" de Manuel Bandeira (1886-1968), o mesmo autor de "A Cópula" -só vendo.

A luta da poesia
Na Feira do Livro, edição de 2002 da Escola Parque, os alunos prestaram
homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade, cujo centenário era comemorado
naquele ano.
"A língua lambe as pétalas vermelhas da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo lépidas variações de leves ritmos. E lambe,
lambilonga, lambilenta, a licorina gruta cabeluda, e, quanto mais lambente,
mais ativa, atinge o céu do céu, entre gemidos, entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos."
No início de setembro, o professor Teixeira foi chamado para uma reunião no
Instituto Moreira Salles, que fica na mesma rua da Escola Parque.
Foi no local construído nos anos 1950, um monumento ao modernismo carioca,
que se comunicou a demissão.
"Disseram-me que havia um parecer de psicólogos e juristas condenando a
combinação do professor com o escritor em uma só pessoa", lembra Teixeira. "Não
pude discutir com nenhum pai, não houve debate nenhum", diz. "Impôs-se a sombra
da censura e do controle porque a escola simplesmente decidiu ceder a um grupo
de pais dos quais nem sequer sei os nomes."
Casado há 24 anos, pai de três filhos, o professor mora no bairro de
Laranjeiras. "Meu problema não é a empregabilidade. Estou muito mais preocupado
com o obscurantismo, com a certeza dos censores. A poesia luta contra isso. E
foi muito trabalho até me transformar em um poeta. Não posso abrir mão disso",
diz.

3 pitacos:

Michel - pupt not1 disse...

é raoni cuidado tbm viu..
haauh
vai que essa moda pega?!
hauah
mas mo sem noção isso..

a escola deveria se orgulhar de ter um professro poeta..

mas nem tudo da pra se entender neah?!
abraço professor e abaixo a censura..
hauahau

Ariny Bianchi disse...

É incrível como a sociedade caminha. O que achamos ser da Idade Média, hoje encontra-se e firma-se na Contemporânea. As instituições privadas rendem-se a massa, ao pensar do capital.

Digo ser um bom momento para a frase de Jerfferson:
“Se uma nação crê que pode ser ignorante e livre, crê no que nunca foi e
nunca será… O Povo não pode estar em segurança sem informação. Quando a
Imprensa for livre e quando todos os homens souberem ler, tudo será seguro.”
Thomas Jefferson

Ariny Bianchi disse...

É incrível como a sociedade caminha. O que achamos ser da Idade Média, hoje encontra-se e firma-se na Contemporânea. As instituições privadas rendem-se a massa, ao pensar do capital.

Digo ser um bom momento para a frase de T. Jerfferson:
“Se uma nação crê que pode ser ignorante e livre, crê no que nunca foi e
nunca será… O Povo não pode estar em segurança sem informação. Quando a
Imprensa for livre e quando todos os homens souberem ler, tudo será seguro.”