segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Uma crônica


SOBRE POETAS E APAIXONADOS (I)

Para uma pessoa frase-feita

Se procurar bem, você acaba encontrando
não a explicação (duvidosa) da vida,
mas a poesia (inexplicável) da vida.
Carlos Drummond de Andrade. “Lembrete”


Foi um dia desses, em Manguinhos, numa boa conversa, em verso e boa prosa, com um amigo, enquanto tomávamos um vinho à beira-mar, que me vieram algumas reflexões sobre poesia e paixões. Estava uma noite contemplativa, talvez mais pela companhia que pela lua – o satélite insistia em se esconder entre nuvens.
Já sabemos que há belas passagens de poesia poeticamente coloridas nas declarações de amor e ainda sabemos que não temos páginas isentas, como também não temos corações isentos. Onde estariam, então, as possíveis novidades de uma associação entre poetas e apaixonados? A aproximação está, entretanto, no simples fato de que em se fazendo poesia despersonaliza-se. Não é, justamente, ao que se dispõe os apaixonados no desespero da linguagem?
Apaixonando-se, o sujeito efetivamente sente, e não há nada aí de sinceridade. Apaixonados se reinventam, buscam formas de expressão, de significação. Da mesma maneira, sentir o que se escreve ou o que se declara para a pessoa amada não é necessariamente prova de sinceridade mas de tentativa de sedução. Poetas e apaixonados querem seduzir com a linguagem. É a plena despersonalização de que trata Fernando Pessoa em avulso em que comenta “os graus da poesia”. Trata-se de viver, sentir, sonhar com estados de alma que não se tem diretamente mas se sente.
Talvez a diferença esteja no momento. Enquanto os apaixonados compõem no momento da emoção, o verdadeiro poeta se guarda para o momento da recordação, momento em que o caos de sentimentos começa a produzir sentidos. Então, se arrisca a tomar posse de palavras, dizer o não dito, tocar a musa, por exemplo, linha a linha do verso com os dedos e os desejos da linguagem. Ou talvez a distância temporal que afasta poetas e apaixonados seja mero formalismo de rigor estético. E, na prática, ambos querem satisfazer o outro, imaginar o outro (o leitor ou a amada), descobrir os seus ritmos e as formas exatas de surpreender. Enfim, transformar mundo em palavras, mundo que já é linguagem mas que se quer e precisa disto: ser dito, ou seja, sentido. Ambos (por favor, nos coloquemos aí) precisamos, senão sentir, ao menos compreender estados de alma.
abraços,
rao.

[continua...

2 pitacos:

Bárbara - sedu 01 disse...

adorei!!!
bjss raoni, saudadee!

Filippe. disse...

Prosa.