domingo, 4 de janeiro de 2009

NOVO ANO, NOVAS GRAFIAS

No jornal A Gazeta deste domingo, o professor Raoni comenta com outros escritores e especialistas em literatura os impactos do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Acompanhe a íntegra da matéria produzida por Marcelo Pereira:


Que ideia é essa?

Acordo ortográfico: o que muda?04/01/2009 - 00h00 (Outros - Outros)
Marcelo Pereira mvitoria@redegazeta.com.br


A ideia parece simples. Desde quinta-feira está valendo o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. A empreitada leva Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor Leste a escreverem da mesma maneira. Os oito países que falam português agora leem na mesma cartilha. Terão que se livrar de vários acentos (leia mais no quadro ao lado). Entre eles, o trema, que é extinto definitivamente (a não ser em casos de nomes próprios, nomes estrangeiros e derivados). Os acentos diferenciais farão parte do passado. As regras para o hífen também foram reformuladas. Calcula-se que, no Brasil, apenas 0,5% das palavras sofrerão alteração, como as que estão em itálico nesta matéria. Em Portugal, o alcance é maior: chega a 1,5% no vocábulo lusitano.A última grande reforma ortográfica no Brasil aconteceu em 1971. Mas a de 2008 é internacional, e não se restringe a apenas um país. Quer unificar a grande assembleia que tem a "última flor do Lácio, inculta e bela" (verso de Olavo Bilac), como sua língua natal. Ou seja, o brasileiro não sentirá diferenças na grafia ao ler textos de além-mar.Entre escritores, poetas, professores e estudiosos da Língua Portuguesa, as mudanças são vistas como sinal de um tempo marcado pela globalização. Mas não deverão ocorrer alterações significativas no que sairá da fértil imaginação de escritores. "Não acredito que terá um impacto na criação estética. A reforma é ortográfica, não é literária", acredita o professor do Mestrado em Estudos Literários pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Wilberth Salgueiro. Para ele, num primeiro momento, talvez essas modificações possam ser combustível para temas de produções poéticas curtas contemporâneas. "Alguns poetas podem encarar essas transformações como algo lúdico. Exemplos eles terão: a palavra ideia não tem mais acento agudo. Já autorretrato perde o hífen e dobra o ?r?", exemplifica.O poeta Casé Lontra Marques, autor do livro "Mares Inacabados", concorda. "A reforma é ortográfica, ou seja, lida com a grafia das palavras, em como ela se propõe visualmente. A literatura e a poesia vão além. Elas lidam com o sentido da linguagem, fazem algo mais profundo", compara. Língua viva A poeta e presidente da Academia Feminina Espírito-Santense de Letras, Jô Drumond, diz que a reforma ortográfica deve funcionar plenamente para a geração que, neste instante, está nos bancos de escola e de alfabetização. "É sempre assim: a gente tem dificuldade de se acostumar da noite para o dia com uma alteração desse calibre. Conheço pessoas que, às vezes, cometem deslizes contra a reforma de 1971, aquela que eliminou uma grande parte de acentos circunflexos", comenta.Estudiosa da obra de Guimarães Rosa, conhecido por sua forma muito particular de escrever, ela considera "que a produção literária não se altera em nada". "São regras de ortografia. Como nas outras reformas, essa também não influencia a identidade e o estilo de cada escritor e poeta."O escritor, editor e professor de Literatura e Língua Portuguesa Raoni Huapaya lembra que o mercado terá dificuldade para adequar os livros didáticos aos novos tempos, uma vez que a antiga e nova ortografia estarão coexistindo até 2013. Só a partir desse ano, a nova grafia passará a ser considerada correta. Escritores e poetas, porém, não terão do que reclamar. "As normas ortográficas da língua culta não regem o idioma em matéria estética. Aliás, é para isso que servem a poesia e a prosa literária: para que possamos demarcar a nossa identidade frente à linguagem, porque ela é algo vivo, não está presa a decretos."Para o professor da Ufes Alexandre Moraes, com ênfase em Teoria Literária e pós-doutorado em Letras pela pela Universidade Federal Fluminense (UFF), o sofrimento dos portugueses será maior. "Portugal é mais resistente a mudanças, é mais tradicional e teimoso que o Brasil. A maior dificuldade em aceitar essa ortografia recente será sentida por lá e desconfio que eles nem a acatem, levando essa ideia de unificação ao fracasso", vaticina.Algumas mudanças Alfabeto Passará a ter 26 letras, ao incorporar as letras "k", "w" e "y". Acento circunflexo Não se usará mais: 1. nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos "crer", "dar", "ler", "ver" e seus derivados. A grafia correta será "creem", "deem", "leem" e "veem"2. em palavras terminadas em hiato "oo", como "enjôo" ou "vôo" - que se tornam "enjoo" e "voo".Acento agudo Não se usará mais: 1. nos ditongos abertos "ei" e "oi" de palavras paroxítonas, como "assembléia", "idéia", "heróica" e "jibóia". Elas passam a ser grafadas "assembleia", "ideia", "heroica" e "jiboia".2. nas palavras paroxítonas, com "i" e "u" tônicos, quando precedidos de ditongo. Exemplos: "feiúra" e "baiúca" passam a ser grafadas "feiura" e "baiuca"Trema Deixará de existir, a não ser em nomes próprios e seus derivados.Acento diferencial Não se usará mais para diferenciar: 1. "pára" (flexão do verbo parar) de "para" (preposição)2. "péla" (flexão do verbo pelar) de "pela" (combinação da preposição com o artigo)3. "pólo" (substantivo) de "polo" (combinação antiga e popular de "por" e "lo")4. "pélo" (flexão do verbo pelar), "pêlo" (substantivo) e "pelo" (combinação da preposição com o artigo)5. "pêra" (substantivo - fruta), "péra" (substantivo arcaico - pedra) e "pera" (preposição arcaica).Curiosidades - A língua portuguesa é o idioma de 240 milhões de pessoas em todo o mundo.- É falada em oito países (Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor Leste) e em cidades da Índia (Goa, Damão, Diu, Dadrá e Nagar-Aveli) e Macau (China).- É a sétima mais falada no mundo e a terceira no mundo ocidental. No ranking mundial está atrás do mandarim, inglês, hindi, espanhol, russo e árabe.- Até o Acordo Ortográfico, era a única língua ocidental que possuía duas formas oficiais de escrita (uma brasileira e outra européia). Inglês, francês e espanhol já fizeram as suas padronizações.- O Acordo de 2008 é a terceira mudança ortográfica no Brasil. Anteriormente, a grafia das palavras tinha sido modificada em 1945 e em 1971.

1 pitacos:

Mundo Mudo,Ouvidos surdos disse...

Oi prof°, fui aluna do projeto, e estou acompanhado seu blog,parabéns muito criativo,fiz o meu agora, quando quiser dá uma passada e deixe sua opinião.
abraço.